Sábado, Maio 31, 2008

John Terry, apenas um tipo como nós

Não há nada mais humano do que uma escorregadela. Uma boa escorregadela. Daquelas que incluem uma queda, algum embaraço e tudo a que temos direito. Sente-se o chão fugir debaixo dos pés e fica-se completamente exposto.

Uma boa escorregadela é desarmante. É um momento da mais pura sinceridade. São alturas como essa que nos fazem perceber que quando o chão nasce é para todos. Por isso digo que não há nada mais humano do que uma escorregadela.

Há uns tempos, por exemplo, um vizinho do meu prédio escorregou três metros à minha frente. Os sapatos de verniz, provavelmente de sola gasta, não se seguraram perante a humidade do piso da entrada acabadinho de limpar.

Nesse momento não vi à minha frente o irritante que estaciona o Volvo V70 a ocupar dois lugares, nem o arrogante que responde a toda a gente com altivez. Vi apenas um homem no chão. Que escorrega e cai quando perde o equilíbrio.

Escorregar é uma forma de nos humanizarmos. Nesse instante não há velhos ou novos, grandes ou pequenos, fortes ou fracos. Não há talentosos ou desajeitados. Há apenas uma pessoa, uma dificuldade em lidar com a lei da gravidade e o chão.

Não há sequer gente tocada pelo dedo de Deus. John Terry, por exemplo. Eu pelo menos nunca mais vou conseguir vê-lo como uma pessoa distante. Inatingível como muitas vezes os jogadores parecem. Para mim será sempre um gajo que escorrega.

Ao contrário da maior parte dos ingleses, nem precisa de não estar sóbrio para escorregar. Escorrega. Ponto final. Escorrega nas situações mais embaraçosas. Quando mais gente está a olhar para ele. Nos momentos mais importantes da vida.

Escorrega na marcação da última grande penalidade da final da Liga dos Campeões. Se não fosse uma pessoa insensível, até era capaz de soltar agora uma lágrima. O que o destino fez a John Terry foi uma demonstração de humildade comovente.

(by Sérgio Pereira)

Publicado por Maisfutebol em 02:32:31 | Link | Comentários Desligados

Addio, catenaccio!

Soutiens ardem ainda para lá das linhas de cal. Cabelos compridos e tranças misturam-se com ganga e olhos semicerrados, cabeleiras afro dispersam-se entre barbas, cabedal e tatuagens. O mundo encheu-se de cores e cheiros a novo, protestos e roturas, e ensurdeceu com gritos pela liberdade. Os Beatles e Elvis apareceram e evaporaram-se, cantou-se Pink Floyd, Zeppelin e Stones, dançou-se break e acid. A música tornou-se industrial, endurecida com a juventude. Já em campo, uma squadra azzurra ainda em tons de cinzento enche os tiffosi de orgulho. Os heróis olham em frente e escutam os sussurros de Rigoletto, que lhes dá leveza à alma e ritmo para a vitória: La donna è mobile, qual piuma al vento, muta d accento, e di pensiero…

Um por um estão ancorados à terra, presos a uma amarra que só os deixa gravitar alguns metros. Aquele elástico gigante invisível só se solta uma ou duas vezes. Mais que isso e tem de ser substituído para não haver acidentes. Plac! Do lado de lá caem na ratoeira. O erro tem de ser aproveitado. Plac, Plac! Som de metal a bater, como num avião, ainda com o alarme dos cintos aceso, assim que se aterra em segurança na pista. Um por um disparam em legião, prontos a cumprir por fim o objectivo, recolher a bagagem e voltar para casa. Goooool! Uma voz tão desgastada e cheia de espinhos como a de Paolo Conte acusa em eco das bancadas: «Catenaccio, catenaccio!» O velho Herrera dá três voltas no túmulo, sem perceber o que aconteceu desta vez.

Incrível esse calcio em que nada é complicado e tudo está longe de ser simples. Esse jogo único, que vive para si e só pensa em si, consciente de que mais importante do que marcar é não sofrer. O calciatori é mais qualquer coisa do que todos os outros. Só guarda-redes tão sobre-humanos como Buffon estão na baliza. Os centrais são banhados em betão antes de entrar em campo. Desdobram-se laterais em extremos porque há que usar as alas. O «10» não existe por si, reclama-se que marque golos como Baggio ou ajude a evitá-los na pele de Pirlo. O ponta-de-lança, capocannioniere, chega ao fim da carreira com mãos e tronco a tremer, obrigado a manter-se concentrado de 90 minutos a 90 minutos, não fosse falhar a única oportunidade criada. A Itália, raramente a melhor equipa em campo, ganha no relvado, mas perde nas bancadas.

O velho Helenio não podia estar à espera. O ferrolho que fechou o Inter tornou-se sistema italiano durante décadas. «Uma grande exibição dura um dia, um bom resultado para sempre», dizia o argentino, quando o massacravam com o cinismo do seu jogo. O relvado dividia-se em tabuleiro de xadrez, e as peças brancas atraíam as pretas para armadilhas com alçapão. Grandes equipas derrubadas protestavam, as falhas alimentavam o ódio. Quem é que gosta de ser enganado? No entanto, com o tempo, quase todos querem ser italianos. Portugal tornou-se cínico nos anos 80 e foi derrubado pelo catenaccio grego em 2004. Surpreendentemente, até o Brasil escavou trincheiras no seu meio-campo para ser campeão do mundo em 1994.

Na altura do Europeu português já nem a squadra azzurra acredita no passado. Algo começara a mudar: a mentalidade, sempre rastro da história, quase meio século depois. Embora com princípios antigos, a Itália já não espera pelos outros. As suas equipas universalizaram-se depois de Bosman, tornaram-se livre pensantes. Inter, Roma e Milan não estão espartilhados pelos elásticos, apesar de ainda constrangidos por anos a fio de obrigações. O calcio já não é bem calcio. Talvez seja futebol, com regras iguais para todos. Que prazer dá ver Pirlo ser maior que todos, estratega altruísta e humilde, a conduzir uma Itália talentosa, em ataque contínuo. Deixem lá Herrera descansar em paz!

(by Luís Mateus)

Publicado por Maisfutebol em 01:16:13 | Link | Comentários Desligados